Desenvolveremos trabalhos em arqueologia e preservação dos mangais. Para tal, convidamos a população da orla marítima, na área do SOMBREIRO (Benguela) a participar nos trabalhos de identificação de fósseis de tartarugas gigantes. Também pretendemos divulgar informações sobre a preservação dos mangais para sobrevivência dos Flamingos e sua nidificação.
Infelizmente, os mangais do Lobito foram de um modo geral substituídos por lixeiras e cimento armado. Apesar de aparecerem Flamingos, esporadicamente nas lagoas formadas em tempo de chuva, nas “tatas” (nome que se dá às áreas rasteiras sem vida aonde se criam salinas, etc) outrora, usavam-se as “tatas” para campos de futebol.
Os mangais são vistos como o berçário de espécies marinhas, bacias de retenção das águas pluviais, protegem a orla marítima da erosão e inundações, entre outras funções. São ecossistemas constituídos por vegetais típicos (mangues), de ambientes alagados, resistentes à alta salinidade da água e do solo.
Poucas plantas estão aptas a sobreviverem num local inundado pelo mar e com pouco oxigénio, mas isso não impede, que os mangues cresçam na sua água salobra. Os mangues do Lobito, albergam grandes populações de caranguejos, nos seus fundos lodosos. Uma grande variedade de peixes, entra no mangal na maré alta, por esse motivo, os mangais são considerados “os berçários do mar”.
As aves mais observadas nos mangais do Lobito são: os flamingos (símbolo da cidade) o marreco do cabo, o pelicano, o pica-peixe, a garça, o colhereiro, o pernilongo, entre outras…
“A Biografia de quem viveu o mangal, reflexao de um Lobitanga”
Quando eu cresci, os flamingos eram assim, viviam assim e eram sagrados : Ninguém tocava num flamingo”, mais ainda, a minha avó, contava-nos que os flamingos tinham as asas vermelhas, porque quando Jesus estava na cruz, sangrando, eles foram limpar-Lhe o rosto com as asas.
Uma das coisas que me fascinava, nos mangais do Lobito, era ver peixes subirem às arvores (mangos ou mangues). Não é fantasia de criança. Por outro lado, havia a “loucura” dos aquários em casa. Aqui vem a parte interessante e que é bom saber: os peixes de aquário, eram “apanhados “, não pescados, com redes de mosquiteiro, coador de chá ou um frasco armadilha para onde entravam os peixes e não podiam sair. Peixes coloridos, goopies, escalaris, etc. Ou seja, os mangais do Lobito, eram de água doce, talvez um pouco salobras, devido à troca do sentido do movimento das águas devido às marés…esta troca de sentido do movimento das águas Rio / mar e Mar /rio, era feita na Caponte sobre o a ponte Carmona.
Dessa forma, por um período curto, havia a salinização das águas no mangal da caponte, razão pela qual aí o mangal era coberto de àrvores (mangos) com a mais linda fauna e flora. Tudo verde. Sob a estrada que liga o compão/cassai à caponte, havia tubos devidamente calibrados, para que apenas a água salgada essencial, entrasse nos mangais do bairro do colégio Doroteias, aonde se encontravam os ninhos dos flamingos. O que digo, imagino, arquitetos, engenheiros, etc, a desenhar o Lobito com flamingos, milhares de flamingos, protegidos no grande parque Nacional que foi o Lobito.
“Não se fala da água doce do rio Cassai que era a fonte de riqueza dos mangais do Lobito.” eis a razão porque, na qualidade de natural do Lobito, criança e adolescente que tinha nos mangais a fonte de ocupação de tempos livres (não havia computadores, telefones, etc.), apreciava o contraste “céu azul, mar azul, mangais verdes, ladeados por salinas com pirâmides brancas, mangais cobertos de “cor-de-rosa” dos flamingos, céu coberto de milhares de flamingos cada vez que aterrava ou levantava voo um avião)…romantismo? Não , realidade.
Conversando com colegas da EICGC (escola Industrial e Comercial de Gago Coutinho), lembramo-nos das pescarias que fazíamos no rio Cassai, bem ali aonde está o Aloet, e que maravilhosos cacussos pescávamos, com um anzol coberto com miolo de pão!!!
Ali perto do hospital regional do Lobito, por detrás do cine Flamingo, havia uma extensão de água que unia o Compão, a Cabaia e o Bairro Cassai; nessa extensão de água, havia milhares de flamingos que deram o nome ao Famoso Cine Flamingo, cujas traseiras, eram banhadas pelo rio Cassai, hoje apenas construções.
Para nós era interessante ver os camponeses que cultivavam no Bairro do Cassai, virem de barco, até os aterros perto do Hospital, trazer hortaliça fresca pela manhã, assim era a praça. Não eram aterros sanitários.
No Bairro da Luz, existe uma vala que indevidamente foi transformada em esgoto a céu aberto; essa vala, outrora era uma das linhas de água que alimentava os mangais do Bairro S João até ao Bar Africano, e Oblisco, e cada arquitecto e construtor, daquelas magníficas casas, achou por bem canalizar os dejectos das casas para a vala.
Já devem estar a ver como foi que os mangáis chegaram até o Liro e Lobito Velho, por esta via, para além da via da Caponte, através da Canata, aonde na minha infância eu brincava nos mangais, a ver a dança dos caranguejos. Aí no Liro, havia as mais saborosas Ostras. Conseguem imaginar uma sala de visitas de Angola como eu vivi?
Falemos agora da queda disto tudo. A guerra, não justifica tudo mas, a longo prazo, destrói mais do que se imagina. O desenvolvimento económico, fez do Lobito um parque industrial que carecia de espaço para alargar. Aonde se foi buscar? Logicamente aos mangais!!!, aí nasceu a Zona Industrial da Canata. Depois, a população cresceu e era necessário espaço para construção, adivinhem aonde se foi buscar? aos mangais!!! foi então que nasceu a bairro académico que ainda hoje sofre as consequências por falta de mangais. e mais ainda o bairro do hospital regional que já vai na cabaia.
O golpe final: O fim da açucareira Cassequel (açucareira primeiro de Maio), acabou com a cana de açúcar e atrás dela, veio a substituição das valas que transportavam água doce para o Lobito, por hortas, primeiro, depois por Zonas habitacionais precárias e finalmente pelas quintas e fábricas entre a Praia Bebé, Catumbela, Santa Cruz, Bairro da Luz e Cabaia. Haverá ainda a possibilidade de se falar em retorno dos Flamingos e naturalmente dos mangais? Poderá haver lagoas de água de esgoto um pouco por toda a parte. O grande desafio, é reverter tudo isto com amor e ciência, pela natureza.
Haverá mangais no Lobito? Assim espero e no que me diz respeito, quero colaborar para isso.
Fotos do site Imbondeiros de Angola, que testemunham que houve, mas não há já mangais no Lobito, que saudades! (colocar foto dos flamingos rosa ao lado desta)
A cidade do Lobito, naqueles tempos, tinha a caraterística de ter portas duplas, sendo a porta exterior de rede; porquê? Havia tantos mosquitos, que todo cuidado era pouco na prevenção do paludismo. Entrando num ciclo ecológico, poderemos dizer que a cana de açúcar, as suas valas e os mangais, eram lugares propícios para os mosquitos proliferarem; para manter o equilíbrio, as larvas dos mosquitos, em grande quantidade, representavam um banquete para os peixes que engordavam enquanto uma grande parte das aves migravam; quando chegavam, no cacimbo (estação climática fria em Angola), comiam os peixes e camarões que entretanto tinham enchido os mangais (felizes eram aqueles que nós os amantes de aquários, lembrando que os nossos mangais, eram de água doce, tínhamos retirado para os aquários de nossas casas). As aves, pelicanos, flamingos etc., filtravam a água num ritual interessante para se alimentarem, para se prepararem para a grande época da maternidade, uma vez que tinha começado a época da nidificação; com a chegada das aves, era necessário reforçar a prevenção contra o paludismo, porque com milhares de aves a comer o peixe dos mangais, voltava a proliferação dos mosquitos que tinham poucos peixes para os comer. Era ai que entrava a câmara municipal com o carro da tifo (aquele carro que deitava fumo impregnado de inseticida), para compensar. As aves que eclodiam, tinham todo o cacimbo para crescer, uma vez que a consciência de Lobitanga, levava-nos a proteger naturalmente os mangais. No final do cacimbo, já estavam preparados e educados para voar e então acontecia aquele festival de Flamingos aos milhares, a cobrir os céus do Lobito para a grande migração (que romântico) . De acordo com a organização política lá no mundo dos flamingos, claro que uma parte deles, ficavam para a nossa alegria. Talvés fossem os recém nascidos, mais preguiçosos que não tinham aprendido a voar.
Assim eram os mangais junto às escolas
Tudo foi substituído por praças, lixeiras, etc.
Temos que reverter isto com ciência, arquitetura, engenharia e muito amor ao Lobito.
Entre o rio Catumbela e o Lobito, corria água entre os canaviais. Era realmente tudo verde, daí a foz no Lobito ser de verdes mangais desejosos que a mão humana, não chegasse lá.